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CRÔNICA: FIDEL MORREU. E DAÍ?
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CRÔNICA: FIDEL MORREU. E DAÍ?

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Tinha um cara que morava no Lote XV, em Belford Roxo, já perto de Caxias. O nome dele era Fidel (merda de nome engraçado, será que tinha a ver com o Castro?) e ele tinha mania de querer mudar as coisas. Vivia dizendo que sonhar não custa nada e o “mundo se move de sonhos”. Filosofava sobre transformar o sistema, libertar-se da opressão do capital e o escambau.
Assobiava Cartola enquanto comia pastel de carne com caldo de cana. Falava que o que importa é que “nossa esperança não é vã e nossos sonhos, ainda que construídos por pequenas mãos, têm a quantidade de matéria de todo o universo”. Puta frase de efeito. Para mim, era só uma frase de efeito. E se você me perguntasse de onde o conheço, não saberia mesmo dizer se me foi apresentado por um amigo da faculdade ou se foi aluno meu.

O negócio é que esse cara vivia postando nas redes sociais (Orkut na época) um monte de mensagens sobre unir-se, não desistir dos sonhos, não parar, continuar lutando. Eu, o Morcego, o Peido, o Careca, o Fuinha, o Cocó, o Pulga e todos os meus amigos adolescentes só queríamos saber de jogar bola, namorar (mulheres, no caso, porque o Fidel gostava de homem também) e ganhar dinheiro. Depois de ver que ele ligava mais que todo mundo para mobilizações políticas on-line, abaixo-assinados e tumultos, comecei a ficar puto em ver o Fidel sonhar, bancado pelos pais, enquanto a gente trabalhava desde os treze ou catorze anos.

Por exemplo, o Morcego me contou antes de morrer (hoje, uns vinte anos depois) – sim, o Morcego morreu, coitado, mexeu com a mulher do cara errado, mas deixa ele pra lá… – me contou que o sonhador tinha vaticinado a publicação de um livro sobre a história do bairro onde ele morava, antes dos 15 anos. A previsão se tornou realidade: lá estava o cordel feito por ele mesmo,
capa carimbada (bem dizer, uma xilogravura que ele fez não sei como), 25 páginas, preto e branco, tiragem de 50 exemplares xerocados e cortados numa guilhotina qualquer. “Viver, lutar e sonhar”. Diz que vendeu tudo nas feiras do Lote XV e de Areia Branca. Eu não sabia disso. E nunca encontrei um exemplar até hoje. Mesmo com a velocidade espantosa com que se acha algo
no Google, se você jogar aí algo como “cordel do Fidel” não vai achar nada sobre o Fidel que o Morcego conhecia. Eu já tentei.

Outra coisa que me contaram sobre o Fidel é que ele estava uma vez na Praça de Heliópolis bebendo no trailler do Mazinho (sim, parece que ele andava a cidade inteira: Tropical, Centro, Nova Aurora, Xavantes, Babi…). Na ocasião, veio uma mulher tão magra e branca que parecia uma vampira, mas tinha os seios do tamanho dos sonhos do Fidel. A moça puxou assunto. Fidel
convidou ela pra sentar. A conversa do Fidel sempre terminava em sonhos, mais ou menos assim:
– Você nunca sonhou em mudar o mundo?
A mulher, de uns trinta anos, sorriu descrente e respondeu:
– Olha, meu sonho tem sido com um emprego ou com um marido rico que me leve pra longe…

Aí o Fidel fez um monólogo grandãozãozarrão. Uns dez quilômetros de conversa depois, quando ele já tinha falado sobre Marx, Gramsci, Bourdier, Freire, Bauman, Proust, Debord, Benjamin e toda a Escola de Frankfurt, a moça interrompeu com algo do tipo:

– Então, neim… Obrigado pela cerveja, mas eu tenho que dar banho no meu cachorro…
Fidel não era cabaço. Ele era sonhador. Não era chato, era culto pra caramba. Fidel não era professor, era pesquisador. Mesmo assim, ele nunca chegou a construir uma casa, nem comprou, não casou (dizia pro Morcego que não queria mesmo), não fez um filho, não chegou a escrever um best-seller, até porque rejeitava os anglicismos. Se publicasse, acho que ele chamaria de “mais-vendido”, ou melhor “obra de resistência mais difundida”. Ele também não descobriu nenhuma cura, não inventou nada relevante, não viajou para Cuba (O Morcego, disse que esse era um dos maiores sonhos do Fidel desde a época da Faculdade. Claro! Eu acho que o conhecia da faculdade e a mãem devia ser fã da família Castro). Na verdade, nenhum de nós realizou nada demais também. Por uma ironia ou outra, o Pulga foi o que saltou mais alto: foi morar fora do Brasil e abriu lá uma empresa de sei lá o quê que eu não entendo, empregou não sei quantos amigos brasileiros e diz que tem investido uma pacota de dinheiro em um pré-vestibular social em Belford Roxo. O Morcego, você já sabe, morreu porque teria comido a mulher de alguém. O Peido virou pastor (Que bom! Sempre achei o Peido maneiro. Tomara que ele use outro nome no púlpito…). O resto eu não sei.

Agora, o mais estranho da história é que, se a vida do Fidel parece esquisita, sua morte foi digna de seus sonhos. Sim, o Fidel morreu também. Foi tudo muito rápido. Eu havia terminado a faculdade, 2010 eu acho, Morcego também. O Fidel era de Ciências Sociais e estava no 18º período. Após ser preso por perturbar a ordem durante uma manifestação pacífica ou algo do
tipo, ele abandonou a maconha (qual a relação? Não sei. Eu perguntaria ao Morcego ou ao próprio Fidel, mas os dois já foram pro saco). “Good by, my sweethart, hello Vietnã cocaína, craque, a gente tem que lutar, o mundo é um moinho, só a luta armada vai libertar o novo homem, espetáculo, identidade líquida, luta de classes, capital, nova ordem, coca-cola, bum!”.

Foi tudo muito rápido. Fidel preso, morre gente na prisão, Fidel cresce, vende mais, elege deputados, financia de lá até um DCE (para quem não sabe,mDiretório Central de Estudantes) em uma universidade, banca chopadas, a festa de um pastor, emprega dezenas de menores, sonha em formar seu exército, ganha a simpatia de uma comunidade LGBT, um grupo de advogados
e dois juízes e um monte de gente que ninguém sabe quem é – Esqueça… Se nem o Morcego me disse os nomes, você acha que eu saberia? –. De repente, Fidel sai em condicional e volta a Belford Roxo como o bandido mais temido do lugar. Mas o senso de propósito da luta não se afastou dele. Tinha princípios: não matava um cara sem antes conversar com a família dele e dar uma
chance. E ninguém conseguia matar o Fidel. Conta-se que certa vez tomou 23 tiros e não morreu, o desgraçado.

Um dia, foi ver um velho amigo jogar bola no campo do Zé-Macaco. No intervalo, parou num trailler, pra tomar um copo de caldo de cana com pastel.
Acontece que, com o passar do tempo, a ideia de “rodízio” também dominou as barraquinhas de caldo de cana. Cinco reais, maravilha! O sujeito bebe caldo à vontade e come um pastel de carne ou queijo. No terceiro copo, o olho grande do Fidel começou a ficar tonto, olhou para os lados, todo mundo distraído, atravessou a rua esquisito e caiu quase roxo, que nem um monte de bosta.

Disseram que o Fidel morreu no hospital. Morreu de caldo de cana. O miserável do sonhador que sobreviveu após vinte e três balaços no corpo tinha diabetes e nunca foi diagnosticado. Sacanagem… Rodízio de caldo…

Fidel morreu. E daí? Quem não conheceu o Fidel, deve achar que seus sonhos, sua vida, seu livro, sua morte, sua história são mentiras. Até já encontrei algumas pessoas que disseram “essa história não é desse tal de Fidel, de Belford Roxo não, é do Fulano de Tal de Caxias” ou “Essa história é de não sei quem de Nova Iguaçu”. Sei lá. Ou o Morcego era um grande mentiroso, ou era um gênio. De fato, eu não estava na Praça de Heliópolis no dia da Vampira, não estava na prisão com ele, não estava era em lugar nenhum com o Fidel. Nunca esbarrei com ele. O Morcego me contou histórias sobre ele, talvez contadas por outras pessoas… Só quem saberia a verdade seria o Morcego ou alguém que tivesse conhecido e convivido com o Fidel.
Assevero que não sou um deles.

Por: Fernando Lúcio de Oliveira

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